Por: Luciano Patussi
06 de outubro de 2026
Enquanto torcedor e apaixonado
por futebol, acompanho de perto a realidade de clubes tradicionais do Brasil,
muitos dos quais vivem uma situação financeira dramática há décadas. Na minha
visão, um dos grandes responsáveis por esse cenário está nos estatutos dessas
instituições, que raramente preveem punições efetivas para situações de gastos
desenfreados ou incompatíveis com o orçamento aprovado.
Os estatutos, afinal, são a
diretriz. São o papel que estabelece as regras. São elaborados, debatidos,
alterados ou mantidos pelos Conselhos Deliberativos de cada clube. Sendo assim,
cada leitor pode tirar suas próprias conclusões a respeito da responsabilidade
dos conselhos de seus respectivos clubes diante do debate que proponho.
No modelo associativo
tradicional, o poder sobre a gestão dos clubes costuma permanecer, via de
regra, nas mãos dos mesmos grupos de pessoas durante décadas, enquanto a bola
de neve das dívidas continua crescendo. E é justamente aqui que entra o
principal problema — um ponto sobre o qual me sinto bastante à vontade para
debater: a forma como os orçamentos são planejados anualmente.
Logo abaixo, em uma abordagem
simples e de fácil entendimento, será possível compreender melhor essa questão.
Como funciona o erro no
planejamento orçamentário de um clube de futebol?
Como os estatutos não costumam
punir o descontrole financeiro, os clubes projetam o ano seguinte contando com
receitas incertas e, muitas vezes, de valores extremamente elevados.
Para ilustrar de forma simples —
e sem entrar no mérito do entendimento sobre futebol, mas olhando estritamente
para a questão financeira — imagine um clube que projeta arrecadar cerca de R$
600 milhões em determinado ano. Contando com um dinheiro que ainda não está
disponível — e que sequer é certo que entrará nos cofres —, a diretoria assume
compromissos e realiza gastos desenfreados.
Vou utilizar como exemplo o
orçamento do Sport Club Internacional, elaborado para a temporada 2026. O clube
orçou receitas brutas totais na faixa de R$ 582,17 milhões e gastos de R$ 581,89
milhões para a temporada, equilibrando, dessa forma, as entradas e saídas
previstas.
Até aí, tudo certo!
Contudo, o maior problema desse
planejamento está no fato de que boa parte da meta de receitas depende de
fatores totalmente incertos:
- Mais de um terço do orçamento (R$ 204,92
milhões) está previsto com base na venda de jogadores. Muitas vezes,
trata-se de atletas que sequer existem no elenco principal ou nas
categorias de base. No caso do clube utilizado como exemplo, por
incompetência e desconhecimento de gestão, não são formados talentos
expressivos há muitos anos, salvo raras exceções. O pior, é que este valor
é bruto e nele ainda incidem descontos previstos, tais como comissões e
participações nos direitos econômicos, entre outros aspectos.
No jargão popular, e colocando em
outras palavras, cometer esse tipo de irresponsabilidade orçamentária é o
legítimo ato de “contar com o ovo em produção sob responsabilidade da
galinha”.
Fique atento: quando a janela de
transferências se aproxima e surgem no noticiário informações de que o jogador
“X” foi oferecido aos clubes A, B e C, muitas vezes isso não passa de uma
manobra desesperada de agremiações que tentam, por diversos meios, chamar a atenção do mercado com objetivo de cumprir
metas estabelecidas em um orçamento elaborado de maneira precária e incompetente.
- Outro valor – normalmente representativo – considerado
no orçamento dos clubes é relativo a premiações da TV ou Confederações por
sua posição final no campeonato, como a conquista de títulos ou bons
posicionamentos em ligas, bem como a classificação para fases finais de
competições eliminatórias.
Isso também representa uma
aberração orçamentária. As premiações decorrentes de metas esportivas
alcançadas jamais deveriam ser consideradas no orçamento para pagar as contas
correntes do próprio ano em curso.
Esse dinheiro deveria entrar no
radar apenas para utilização no orçamento subsequente, justamente porque o
resultado esportivo é incerto e nunca pode ser tratado como garantido, por mais
adequado que seja o planejamento realizado. Embora esse valor não apareça
claramente no orçamento do clube aqui utilizado como exemplo, imagina-se que
ele é um montante inserido em alguma das rubricas do orçamento, como cotas de
TV, talvez. É o “ovo em produção com a galinha” aparecendo novamente...
O jeito certo de planejar
Uma gestão séria, que realmente
tenha como objetivo tirar um clube do caos financeiro, deveria fazer exatamente
o oposto.
O orçamento básico de despesas e
receitas deveria estar apoiado exclusivamente em bases mais sólidas, que,
embora também possam sofrer variações, sejam mais previsíveis dentro de um
exercício anual, como:
- Patrocínios já firmados;
- Cotas mínimas de TV por participação em campeonatos;
- Arrecadação proveniente do quadro social.
E o que entrar além disso?
Vendas de atletas e premiações
por desempenho deveriam ser tratadas como bônus, e não como dinheiro
garantido para o pagamento das contas do exercício vigente.
Esse excedente deveria ser
utilizado para eventuais premiações extras, formar reservas, cobrir eventuais
falhas na arrecadação anual prevista ou, ainda, ser reinvestido com segurança
somente no ano seguinte.
Conclusão
Parece simples?
Na teoria, é muito simples!
Contudo, enquanto tivermos
estatutos ultrapassados que não punem prejuízos financeiros recorrentes e decorrentes
de erros na elaboração orçamentária, e enquanto diretorias eleitas continuarem
elaborando orçamentos com essa mentalidade, sob aval de seus conselhos e sem a
preocupação efetiva de reduzir o endividamento em algum momento, os grandes
clubes do nosso futebol continuarão enxugando gelo.
Continuarão pagando contas
indevidas, aumentando desenfreadamente seus passivos e, principalmente, sem
qualquer perspectiva real de alcançar uma solução satisfatória para sua saúde
financeira.
A solução passa por reformas
estatutárias objetivas e por uma gestão financeira responsável, que
leve em consideração os pontos apresentados neste texto na elaboração dos
orçamentos, independentemente do modelo adotado pelos clubes — sejam eles
associações, SAFs ou qualquer outro formato.
A necessidade de debate é
iminente.
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