Há momentos em que o futebol
deixa de ser um esporte e se torna um pacto de sobrevivência da própria alma.
Acompanho o Internacional desde o início da década de 1990 — inclusive acho que
esta é a primeira vez que reporto nesta página um amor de infância! Desde
aqueles tempos, eu acreditava estar preparado para o turbilhão de emoções que
começaria a se desenhar em dezembro de 2004, quando o Colorado anunciou a
contratação de Tinga, um presente de Natal para o sofrido torcedor! Um atleta
formado no tradicional adversário de Porto Alegre anos antes, o qual tecnicamente eu
admirava desde a base — assim como Ronaldinho. Era inimaginável vê-lo vestindo
a camisa vermelha. Ele, Tinga, vestiu!
Aí veio 2005. A Máfia do Apito e
seus desdobramentos arrancaram de nós o título brasileiro e esmigalharam o
sonho de milhões de torcedores. A dor foi tão profunda que prometi a mim mesmo:
deu. Deixaria o futebol em segundo plano. Não valia a pena sofrer por algo tão
injusto.
Mas promessas de torcedor duram
até o próximo apito inicial.
No início de 2006, eu veraneava
no litoral norte gaúcho. Faltavam poucos minutos para a estreia do Inter na
Libertadores contra o Union Maracaibo, no entardecer praiano, quando a promessa
ruiu. O desespero bateu forte. Saí correndo sem rumo até parar em um bar em
Atlântida Sul. Ali, no meio de centenas de colorados transformados num
verdadeiro mar vermelho, a chama que eu achava que tinha apagado se reavivou
com força total. Na realidade, ela estava apenas em standby. Após abrir o
placar com gol de Ceará, sofremos o empate no final da partida. OK, poderia ter
sido pior para um jogo de estreia com tanta tensão no ar. Veio então a segunda
rodada da fase de grupos!
Naquela semana, a barreira do
receio já tinha caído por completo. Fui ao Beira-Rio acompanhado de amigos e
colegas da Bunge, empresa onde trabalhava na época! Vitória maiúscula: 3 a 0
contra o Nacional/URU. Terminado o jogo, esticamos a comemoração nos deliciando
na churrascaria que ficava ao lado do estádio, no próprio Parque Gigante. Entre
uma mesa e outra, cruzamos com a história viva: Rubens Cardoso, Mossoró,
Fabiano Eller e Léo — atletas do elenco do Inter! Aproximei-me do Eller — o
xerife que tinha chegado para acertar nossa zaga —, pedi um autógrafo e,
olhando nos seus olhos, implorei pela Taça. Ele respondeu com a firmeza dos
predestinados: "Vamos ser campeões, confiem na gente. Esse grupo é
muito forte."
Em mais de 15 anos acompanhando
este clube gigante, eu nunca tinha ouvido um jogador falar com tanta convicção!
Fabiano Eller me disse isso! Voltei para casa anestesiado. Na antiga rede
social Orkut, profetizei: faltavam 12 jogos para a glória. Meus amigos
compraram a ideia imediatamente. Eu acreditava piamente naquela contagem
regressiva, enquanto muitos a levavam na brincadeira!
A caminhada, porém, testou nosso
coração. Nas quartas de final, veio a derrota para a LDU em Quito e um hiato
angustiante de dois meses até o jogo de volta. Durante a Copa do Mundo de 2006,
enquanto o planeta olhava para a Alemanha, a torcida colorada passava noites em
claro, contando os dias e sonhando apenas com a retomada da Libertadores.
No reencontro, o Beira-Rio era um
caldeirão transbordando. Fizemos 2 a 0, mas o futebol gosta do drama. No último
lance da partida, uma falta perigosa para os caras ameaçou o nosso destino. Em
outros tempos, aquela bola entraria, óbvio! Foi quando Clemer, tal qual uma ave
de rapina, voou no canto para fazer a defesa da vida e decretar nossa passagem
para a semifinal — onde fato parecido aconteceu em um lance contra o Libertad.
Eram os deuses do futebol escrevendo o roteiro do que estava por vir.
O que aconteceu depois já está
gravado na eternidade, escrito como pura magia há exatos 20 anos, naquele 16 de
agosto de 2006. Durante a madrugada do dia 17, o que se viu foi festa,
carreatas e buzinaços!
Há exatos 20 anos, ao lado de
minha família, vi meu pai chorar de emoção. Um choro de libertação, de orgulho,
de quem esperou a vida inteira por aquele segundo. Era o Internacional cravando
sua bandeira no ponto mais alto da América. Lembro que, ali por 1995, perguntei
ao meu velho após uma de tantas sofridas derrotas: "será que o Inter
vencerá o campeonato mundial até o ano 2000?". Meu receio era o fim dos
tempos! Meu pai respondeu, triste com a pergunta, mas defendendo suas cores:
"acho que sim, filho. É um clube gigante que foi maltratado, mas que vai
acordar um dia". Levou seis anos além do previsto, mas aconteceu!
Olhávamos para o gramado e víamos
uma névoa densa cobrir o Beira-Rio. Na hora, achamos que era apenas a fumaça do
foguetório da torcida. Mal sabíamos que vinham ali os resquícios trazidos pelo
vento dos Andes, vindos do topo continental. Era a fumaça do cachimbo do Saci,
que deixara sua bandeira cravada no Aconcágua, pairando no ar, abençoando o
Gigante e pintando a América de vermelho pela primeira vez.
Salve Tinga, salve Sóbis e Fernandão! E todos os demais!
