segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Resquícios dos Andes


Por: Luciano Patussi
17 de agosto de 2026

Há momentos em que o futebol deixa de ser um esporte e se torna um pacto de sobrevivência da própria alma. Acompanho o Internacional desde o início da década de 1990 — inclusive acho que esta é a primeira vez que reporto nesta página um amor de infância! Desde aqueles tempos, eu acreditava estar preparado para o turbilhão de emoções que começaria a se desenhar em dezembro de 2004, quando o Colorado anunciou a contratação de Tinga, um presente de Natal para o sofrido torcedor! Um atleta formado no tradicional adversário de Porto Alegre anos antes, o qual tecnicamente eu admirava desde a base — assim como Ronaldinho. Era inimaginável vê-lo vestindo a camisa vermelha. Ele, Tinga, vestiu!

Aí veio 2005. A Máfia do Apito e seus desdobramentos arrancaram de nós o título brasileiro e esmigalharam o sonho de milhões de torcedores. A dor foi tão profunda que prometi a mim mesmo: deu. Deixaria o futebol em segundo plano. Não valia a pena sofrer por algo tão injusto.

Mas promessas de torcedor duram até o próximo apito inicial.

No início de 2006, eu veraneava no litoral norte gaúcho. Faltavam poucos minutos para a estreia do Inter na Libertadores contra o Union Maracaibo, no entardecer praiano, quando a promessa ruiu. O desespero bateu forte. Saí correndo sem rumo até parar em um bar em Atlântida Sul. Ali, no meio de centenas de colorados transformados num verdadeiro mar vermelho, a chama que eu achava que tinha apagado se reavivou com força total. Na realidade, ela estava apenas em standby. Após abrir o placar com gol de Ceará, sofremos o empate no final da partida. OK, poderia ter sido pior para um jogo de estreia com tanta tensão no ar. Veio então a segunda rodada da fase de grupos!

Naquela semana, a barreira do receio já tinha caído por completo. Fui ao Beira-Rio acompanhado de amigos e colegas da Bunge, empresa onde trabalhava na época! Vitória maiúscula: 3 a 0 contra o Nacional/URU. Terminado o jogo, esticamos a comemoração nos deliciando na churrascaria que ficava ao lado do estádio, no próprio Parque Gigante. Entre uma mesa e outra, cruzamos com a história viva: Rubens Cardoso, Mossoró, Fabiano Eller e Léo — atletas do elenco do Inter! Aproximei-me do Eller — o xerife que tinha chegado para acertar nossa zaga —, pedi um autógrafo e, olhando nos seus olhos, implorei pela Taça. Ele respondeu com a firmeza dos predestinados: "Vamos ser campeões, confiem na gente. Esse grupo é muito forte."

Em mais de 15 anos acompanhando este clube gigante, eu nunca tinha ouvido um jogador falar com tanta convicção! Fabiano Eller me disse isso! Voltei para casa anestesiado. Na antiga rede social Orkut, profetizei: faltavam 12 jogos para a glória. Meus amigos compraram a ideia imediatamente. Eu acreditava piamente naquela contagem regressiva, enquanto muitos a levavam na brincadeira!

A caminhada, porém, testou nosso coração. Nas quartas de final, veio a derrota para a LDU em Quito e um hiato angustiante de dois meses até o jogo de volta. Durante a Copa do Mundo de 2006, enquanto o planeta olhava para a Alemanha, a torcida colorada passava noites em claro, contando os dias e sonhando apenas com a retomada da Libertadores.

No reencontro, o Beira-Rio era um caldeirão transbordando. Fizemos 2 a 0, mas o futebol gosta do drama. No último lance da partida, uma falta perigosa para os caras ameaçou o nosso destino. Em outros tempos, aquela bola entraria, óbvio! Foi quando Clemer, tal qual uma ave de rapina, voou no canto para fazer a defesa da vida e decretar nossa passagem para a semifinal — onde fato parecido aconteceu em um lance contra o Libertad. Eram os deuses do futebol escrevendo o roteiro do que estava por vir.

O que aconteceu depois já está gravado na eternidade, escrito como pura magia há exatos 20 anos, naquele 16 de agosto de 2006. Durante a madrugada do dia 17, o que se viu foi festa, carreatas e buzinaços!

Há exatos 20 anos, ao lado de minha família, vi meu pai chorar de emoção. Um choro de libertação, de orgulho, de quem esperou a vida inteira por aquele segundo. Era o Internacional cravando sua bandeira no ponto mais alto da América. Lembro que, ali por 1995, perguntei ao meu velho após uma de tantas sofridas derrotas: "será que o Inter vencerá o campeonato mundial até o ano 2000?". Meu receio era o fim dos tempos! Meu pai respondeu, triste com a pergunta, mas defendendo suas cores: "acho que sim, filho. É um clube gigante que foi maltratado, mas que vai acordar um dia". Levou seis anos além do previsto, mas aconteceu!

Olhávamos para o gramado e víamos uma névoa densa cobrir o Beira-Rio. Na hora, achamos que era apenas a fumaça do foguetório da torcida. Mal sabíamos que vinham ali os resquícios trazidos pelo vento dos Andes, vindos do topo continental. Era a fumaça do cachimbo do Saci, que deixara sua bandeira cravada no Aconcágua, pairando no ar, abençoando o Gigante e pintando a América de vermelho pela primeira vez.

Salve Tinga, salve Sóbis e Fernandão! E todos os demais!

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Fim da linha: a dor do jejum e o futuro do futebol brasileiro

Por: Luciano Patussi

06 de julho de 2026


A derrota por 2 a 1 para a Noruega marca a despedida da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Mais do que a eliminação em si, o resultado estende o nosso jejum de títulos para amargos 28 anos. Lamento, fundamentalmente, pelas crianças do nosso país. Em meio à evolução tecnológica e à avalanche de novas alternativas de entretenimento, seja nos esportes ou no ambiente digital, a juventude vê cada vez menos o futebol como prioridade, deixando o esporte que é paixão nacional em segundo plano. Todos ficamos tristes; uns mais, outros menos. Eu, principalmente, sinto por minha filha, por seus amigos, colegas e por uma geração inteira que, apegada a ídolos muitas vezes distantes, nunca viu um título mundial do Brasil. Aliás, passamos longe disso nas últimas seis disputas...

Não pretendo, neste espaço, fazer uma sabatina puramente tática. Minhas convicções são claras. Contamos com um dos melhores treinadores do mundo na atualidade, contratado pela CBF justamente para mitigar as críticas e estancar a bagunça organizacional que marcou o ciclo pré-Copa. Contra a Noruega, vi uma atuação sem brilho e sem o ímpeto necessário, é verdade; mas era um jogo difícil, onde houve chances reais de vitória. No entanto, avalio que o técnico se equivocou nas substituições do segundo tempo, comprometendo o desenho que vinha funcionando nessa copa.


Desempenhos Individuais e o Foco Necessário

Por outro lado, saio deste Mundial muito satisfeito com o futebol do jovem Rayan, que confirmou seu potencial, subiu na hierarquia e tem tudo para crescer ainda mais. Em contrapartida, ratifiquei minha visão sobre o erro na convocação de Neymar: um atleta que já não atuava em alto nível competitivo há tempos e fez um esforço hercúleo para estar na Copa — um cenário que só se desenhou pelas lamentáveis lesões de talentos como Rodrygo e Estêvão. Não se trata de uma questão técnica, mas de ritmo de jogo e intensidade que o cenário mundial exige. Agora, com o encerramento deste ciclo na Seleção, o atacante deve seguir seu caminho no Santos e em suas outras prioridades, enquanto o Brasil precisa, obrigatoriamente, virar a página.

Além disso, alinho-me aos que defendem que Copa do Mundo exige imersão absoluta. Compreendo os novos tempos, mas a preparação para um torneio dessa magnitude não deveria contar com a presença constante de familiares e amigos no QG da delegação. Não se trata de defender uma blindagem hipócrita, mas de priorizar o foco integral.

Esta Seleção, embora carregasse o peso da nossa tradição e tivesse margem para evoluir, não era a melhor do mundo. Para compensar o déficit em relação as três melhores equipes e buscar o título – que era possível, o foco deveria estar 100% no campo — e não rateado com agendas externas, camarotes ou engajamento em redes sociais.

Reitero aqui o que escrevi após a eliminação para a Croácia, em 2022: não há culpados; há responsáveis. As variáveis que decidem uma partida de futebol são inúmeras: o pênalti desperdiçado; a bola na trave; a defesa; o adversário; o ânimo geral; o foco. Enfim, são diversas...


O Resgate da Essência e o Ciclo de 2030

Cabe agora à confederação nacional, sob o escrutínio e a cobrança coerente da mídia especializada, fomentar e preservar o futebol em sua essência. Precisamos olhar para a formação e buscar soluções para que os jovens não desistam de jogar nem de acompanhar o esporte. Afinal, diferentemente de 2002 – ano do penta –, a concorrência digital hoje é vasta, confortável e sedutora, criando a ilusão de que as telas oferecem realidades mais atraentes do que a vida real.

Tomara que a gurizada volte em massa para os campos de terra. Que os clubes e a Seleção fiquem atentos para não deixar esmorecer o sentimento por este esporte. Lembro-me perfeitamente de 1994, quando o futebol pulsava nas ruas antes mesmo do torneio começar. Após o tetra, vivemos uma febre: as escolinhas lotaram porque todas as crianças sonhavam em ser o novo Romário. O futebol move afetos, molda sonhos e é uma ferramenta poderosa de inclusão social. Não podemos deixar esse espírito morrer por conta de um longo jejum, ocasionado em parte por lacunas geracionais de talento, mas, principalmente, por desorganização diretiva.

A geração de jogadores brasileiros que chegará ao auge em 2030 é muito promissora — do meio-campo para a frente. Temos quatro anos para estruturar uma equipe competitiva. Que se faça, desde já, um ciclo organizado e livre das incertezas que minaram o planejamento até 2026, encerrado ontem de forma tão melancólica. Saio deste torneio relativamente conformado — e é justamente essa falta de espanto que dói mais do que a própria indignação.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Ressurreição de um sentimento

Por: Luciano Patussi

09 de dezembro de 2022

 

POR TODA A VIDA

Vai doer a vida toda! Jamais esquecerei o semblante de minha filha ao término da partida decidida nos pênaltis e que sacramentou a eliminação da seleção brasileira diante da Croácia, na Copa do Mundo de 2022. A reação dela determinou: essa foi a derrota do futebol brasileiro que mais me entristeceu até hoje. Óbvio, isso é uma questão particular, algo que outras pessoas podem ter vivenciado de modo similar, ou sentido de forma totalmente diferente. Tudo depende da realidade e do momento de cada indivíduo! Algumas derrotas me frustraram, irritaram ou me deixaram estagnado, talvez indiferente, ou até envergonhado. Mas, a derrota contra a Croácia me entristeceu como jamais pensei que me sentiria ao ver um jogo da seleção nacional brasileira!

Obviamente, isso é só futebol, e sei que existem outras questões de maior relevância e prioridade na vida de um ser humano. Mas, para quem é apaixonado por este esporte, podemos afirmar que o futebol é a coisa mais impactante dentre as menos importantes de nossa existência. Muitas vitórias vividas e outras que virão, por exemplo, jamais apagarão de minha mente, o rosto de minha filha, aos seus oito anos de idade, nesse dia 9 de dezembro, justamente em um momento da vida onde ela começa a se interessar e se apaixonar por detalhes do jogo de futebol. Sangrou, meu coração!

 

SAFRA PROMISSORA

Passados vinte anos após a última conquista mundial da seleção brasileira, entendo que o Brasil voltou a ter uma geração de jogadores muito promissora, com alguns talentos diferenciados que vão crescer ainda mais em nível mundial, caso de Vinícius Júnior, por exemplo – que está longe do teto que alcançará mas, ainda assim, já é diferenciado tecnicamente! Isso, por si só, traz esperança em dias mais felizes para o futebol nacional!

 

PÊNALTIS: UMA DISPUTA MENTAL

Naturalmente, em uma partida de futebol, e igualmente em uma disputa de desempate via pênaltis, existem “n” variáveis que possibilitam a uma equipe buscar a classificação, com maior chance de êxito.

Sinto enorme frustração ao ver o time, pelo qual estou torcendo, entrar “já derrotado” para o desempate via penalidades da marca da cal. E isso aconteceu em “Brasil x Croácia”. Entendo que o andamento do jogo, até chegar na disputa de pênaltis, eleva o desgaste físico; compreendo também, a carga emocional que aumenta. Todavia, nesse momento, entra um dos fatores principais da decisão por pênaltis: o fator mental! Nunca pensei que sentiria saudades de ver as atitudes apaixonadas e motivadoras do lendário Zagallo, na beira do gramado! Em uma disputa de pênaltis, com atletas já desgastados, o momento exige mentalidade motivadora e confiante, até para mostrar aos adversários que eles vão perder, e não nós! Nós é que sairemos vitoriosos. Isso precisa ser mentalizado. Tais atitudes podem não decidir o jogo a nosso favor, obviamente, mas aumentam a chance de êxito!

Pô, era a Croácia! Atual vice-campeã mundial! Time competitivo. Não havia nenhum demérito em ir aos pênaltis. Houveram erros no decorrer do jogo, OK! Mas, já que isso ocorreu e os pênaltis viraram realidade, era esperado que as lideranças surgissem naquele momento e vibrassem para acordar a equipe, para irem confiantes, com seus mais experientes atletas chamando a responsabilidade – inclusive o capitão, zagueiro tecnicamente qualificado e renomado mundialmente mas que, após não aparecer na lista dos cinco batedores iniciais, deu as caras no fim da partida para, em entrevista penosa, iniciar a “cavadinha” visando vaga futura na CBF. Isso, sem falar na decisão de colocar Rodrygo, um ótimo jogador, atleta extremamente técnico e promissor, mas ainda jovem, para bater a primeira cobrança, quando tínhamos no elenco a fama, a experiência e a técnica de Neymar Júnior – que devido ao andamento das cobranças perdidas, acabou nem precisando executar sua quinta e estrelada penalidade. Por vezes, como já afirmado anteriormente, as penalidades máximas são um jogo vencido na estratégia e, principalmente, na mentalidade do momento, ainda mais após o desgaste físico proporcionado por 120 minutos de jogo. Mas...

 

OLHAR CIRÚRGICO: OS PEQUENOS DETALHES E RESPONSABILIDADES DE UMA DECISÃO

O futebol é o esporte onde há o maior número de fatores que, combinados, levam a uma derrota dolorida ou até a glória eterna. Os pequenos detalhes mencionados no parágrafo anterior poderiam, se executados de modo diferente, não levar a lugar algum – pois isso é um jogo, e a Croácia é um bom time, que poderia ter vencido a disputa independente da decisão pela ordem dos cobradores da seleção brasileira, ou do sumiço de determinados líderes. Mas, tudo isso são pequenos detalhes que maximizam ou minimizam as chances de vitória. Não há culpados. É só um esporte. Há responsabilidades. Alguns a chamam para si e decidem, entrando para a história da memorável vitória ou da derrota dolorosa – mas não fugindo do momento derradeiro e decisivo. Já outros...

A derrota faz parte do esporte. Há fatores, dentro do jogo, que dependem de tomada de decisão no momento, e não há como voltar atrás. Jamais busco apontar culpados, e sim responsabilidades. Culpa é uma palavra forte, pois isso é um jogo, e toda a torcida está triste, sendo que isso envolve atletas e seus familiares. A grande frustração fica registrada por conta de que foi nítido que Brasil falhou em detalhes estratégicos: na prorrogação e na atitude de liderança positiva (ou falta dela) na hora de mobilizar para a cobrança de pênaltis.

 

PRIORIDADES

Resta a torcida agora viver a vida, enxugando as lágrimas de nossos filhos pequenos, na esperança de que os promissores talentos da seleção brasileira não esmoreçam, chegando em 2026 num patamar avançado, com positivos e agregadores líderes ao seu lado no time. Com isso, aumentará a chance de vermos o Brasil novamente campeão mundial nesse esporte que é, sem sombra de dúvidas, o que mais envolve pessoas e sentimentos na face da Terra! E, preferencialmente, que dentre as prioridades esteja o semblante sério, porém confiante, chuteira preta, força mental e coletiva, tendo foco principal no futebol, deixando clics, seguidores e agendas estéticas em segundo plano. Tipo 1994!