segunda-feira, 6 de julho de 2026

Fim da linha: a dor do jejum e o futuro do futebol brasileiro

Por: Luciano Patussi

06 de julho de 2026


A derrota por 2 a 1 para a Noruega marca a despedida da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Mais do que a eliminação em si, o resultado estende o nosso jejum de títulos para amargos 28 anos. Lamento, fundamentalmente, pelas crianças do nosso país. Em meio à evolução tecnológica e à avalanche de novas alternativas de entretenimento, seja nos esportes ou no ambiente digital, a juventude vê cada vez menos o futebol como prioridade, deixando o esporte que é paixão nacional em segundo plano. Todos ficamos tristes; uns mais, outros menos. Eu, principalmente, sinto por minha filha, por seus amigos, colegas e por uma geração inteira que, apegada a ídolos muitas vezes distantes, nunca viu um título mundial do Brasil. Aliás, passamos longe disso nas últimas seis disputas...

Não pretendo, neste espaço, fazer uma sabatina puramente tática. Minhas convicções são claras. Contamos com um dos melhores treinadores do mundo na atualidade, contratado pela CBF justamente para mitigar as críticas e estancar a bagunça organizacional que marcou o ciclo pré-Copa. Contra a Noruega, vi uma atuação sem brilho e sem o ímpeto necessário, é verdade; mas era um jogo difícil, onde houve chances reais de vitória. No entanto, avalio que o técnico se equivocou nas substituições do segundo tempo, comprometendo o desenho que vinha funcionando nessa copa.


Desempenhos Individuais e o Foco Necessário

Por outro lado, saio deste Mundial muito satisfeito com o futebol do jovem Rayan, que confirmou seu potencial, subiu na hierarquia e tem tudo para crescer ainda mais. Em contrapartida, ratifiquei minha visão sobre o erro na convocação de Neymar: um atleta que já não atuava em alto nível competitivo há tempos e fez um esforço hercúleo para estar na Copa — um cenário que só se desenhou pelas lamentáveis lesões de talentos como Rodrygo e Estêvão. Não se trata de uma questão técnica, mas de ritmo de jogo e intensidade que o cenário mundial exige. Agora, com o encerramento deste ciclo na Seleção, o atacante deve seguir seu caminho no Santos e em suas outras prioridades, enquanto o Brasil precisa, obrigatoriamente, virar a página.

Além disso, alinho-me aos que defendem que Copa do Mundo exige imersão absoluta. Compreendo os novos tempos, mas a preparação para um torneio dessa magnitude não deveria contar com a presença constante de familiares e amigos no QG da delegação. Não se trata de defender uma blindagem hipócrita, mas de priorizar o foco integral.

Esta Seleção, embora carregasse o peso da nossa tradição e tivesse margem para evoluir, não era a melhor do mundo. Para compensar o déficit em relação as três melhores equipes e buscar o título – que era possível, o foco deveria estar 100% no campo — e não rateado com agendas externas, camarotes ou engajamento em redes sociais.

Reitero aqui o que escrevi após a eliminação para a Croácia, em 2022: não há culpados; há responsáveis. As variáveis que decidem uma partida de futebol são inúmeras: o pênalti desperdiçado; a bola na trave; a defesa; o adversário; o ânimo geral; o foco. Enfim, são diversas...


O Resgate da Essência e o Ciclo de 2030

Cabe agora à confederação nacional, sob o escrutínio e a cobrança coerente da mídia especializada, fomentar e preservar o futebol em sua essência. Precisamos olhar para a formação e buscar soluções para que os jovens não desistam de jogar nem de acompanhar o esporte. Afinal, diferentemente de 2002 – ano do penta –, a concorrência digital hoje é vasta, confortável e sedutora, criando a ilusão de que as telas oferecem realidades mais atraentes do que a vida real.

Tomara que a gurizada volte em massa para os campos de terra. Que os clubes e a Seleção fiquem atentos para não deixar esmorecer o sentimento por este esporte. Lembro-me perfeitamente de 1994, quando o futebol pulsava nas ruas antes mesmo do torneio começar. Após o tetra, vivemos uma febre: as escolinhas lotaram porque todas as crianças sonhavam em ser o novo Romário. O futebol move afetos, molda sonhos e é uma ferramenta poderosa de inclusão social. Não podemos deixar esse espírito morrer por conta de um longo jejum, ocasionado em parte por lacunas geracionais de talento, mas, principalmente, por desorganização diretiva.

A geração de jogadores brasileiros que chegará ao auge em 2030 é muito promissora — do meio-campo para a frente. Temos quatro anos para estruturar uma equipe competitiva. Que se faça, desde já, um ciclo organizado e livre das incertezas que minaram o planejamento até 2026, encerrado ontem de forma tão melancólica. Saio deste torneio relativamente conformado — e é justamente essa falta de espanto que dói mais do que a própria indignação.

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